O Êxodo de Logos

 

Cá livre estou, vago na imensidão da pureza. Nos troncos altos dos pinheiros os pássaros cantam, as flores exalam a suas cores vivas e intensas, da a luz às filhas à terra fértil, desde que liberto fui. Meu corpo desengonçado de palha intercalado por trapos não significa nada, absolutamente nada, o que tenho de superficial nada me representa. Em casa vivo além da floresta, o significado de ar puro tem significante, quedo árvores, quedo pássaros, quedo corvo. Ó! Agradecer devo a quem? O paraíso é o pedaço de terra que uso para trabalhar: liberdade para mim e abóboras para o corvo. Quedo acordo, visto-me a palha, chapéu e botas. Minha pele reage ao vento, cada pedaço de palha corteja uma dança, de cortesia vai a corneta que o Corvo toca, ah meu amigo Corvo! À honra, dê-me-a para acompanhá-lo.

Partir devo, necessito ao mesmo tempo justificar: o êxodo, abandona-me a perfeição, pedes reconhecimento, vos darei no grande êxodo. Serve-me bem a tipóia, carrego trapos amarrados ao lenço sobre uma pá. Caminho, botas pisoteiam a terra, barulho de caminhada leve dos meus quilos frágeis. Caminho. O palácio das oportunidades vejo, inteligente ficarei? Resposta como essa será respondida. O Corvo me segue, ao desconhecido seduzindo. Passo dias, meses, anos e décadas. Oportunidades tenho, garçom eu sou, os pedreiros, o preto e o pobre sirvo, pois dizem que não sou bom para os bons. Mal educados aqui são, me batem e me empurram, de longe o Corvo observa, algo quer que eu perceba. Estão me humilhando, derrubaram o pão e pediram que eu comece, e eu comi, por que tantas gargalhadas? Mas continuar vou, pois dinheiro tenho e gastar agora vou. Roubaram meu dinheiro.  Tudo é frio aqui, não se olham as pessoas, em sua visão sou deficiente, fantoche de comércio, mero capacho incerto. Saio a noite e vejo rabos de saio dopados de doença, vou cortejar um, pois sou livre e dinheiro agora tenho.

Caixas cheias e vazias, o cartão serve-me para liberdade. Remoendo minhas palhas esta a comida, diz que estou mudando o Corvo. A bebida, me faz ver o que quero, o desleixo real, a fantasia, a dança e a corneta. Vômito. Sinto-me mal, muitas pessoas se sentem, dane-se o palhoso! Nem gente é. Sozinho, frio, solitário, não há mais volta, estou corrompido. Ei Corvo! Ei! Decadência, sonolência, depressão, dor, muita dor, sozinho, quem quer um espantalho por perto? Eu não! Onde piso faz barulho, fedor, muito fedor. As luzes dos grandes pedregulhos farpados, tão grande e nada dão. Orgulho, sofrimento, caos, orgasmo, inferioridade, decadência, massivo, populoso. Meus pensamentos somem, sobra a sobrevivência.

“- Acorda ei! Retornaste quedo Corvo”, dizia o corvo em cima  da aberração que já não parecia espantalho.

“- Você! Trouxe-mes aqui por quê? Morto estou, fome tenho, dinheiro se foi, junto à liberdade!”, berrava o espantalho.

“- Fraco! És fraco! Não és o espantalho! És palha somente! Os mais fortes aqui vivem, aqui reina a maldição! Para viver a batalha triunfal, só aqui. Se reclamas, para o fácil volte, volte!”, exclamou o Corvo eufórico.

“-… Quedo corvo. Encontrei o sentido!  Há sentido, tens razão. Vou dar de comida aos necessitados, vou conceber amor aos solitários, melhorar é o que mais tem para fazer aqui, então tens algo para acreditar. Agora eu… enxergo, do que adiantas ficar parado no paraíso enquanto aqui precisam de ajuda, era isto que querias que eu enxergasse!”, dizia o Espantalho alucinado, perdido, cego pela crise existencial e motivação para omitir o fracasso e a dor.

Sem precedentes ou ameaças, o Corvo deu-lhe um tabefe na cara, grunhindo seus gritos de Corvo trivial,
“- Jamais. Não ajudarás ninguém, aqui viestes estabelecer o sentido e não extinguí-lo, o sentido é a dor; o caos; o inferno pedregulho, a maldição; a decadência; a infelicidade e a tristeza. O potencial tens para banir a impurezas desse mundo, todavia, se o fizesse, este mundo deixaria de ser quem um dia foi. Tragédia, destruição, o preconceito e a dor, o imoral e o anti ético; tu és o espantalho dos sentidos, do significado, das leis e da existência. Traga a podridão que este mundo tanto sucumbi-se. A identidade, jamais tire da humanidade. Na escória viva e traga ela consigo, reviva o caos: o sentido é este.”

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Guerra cultural

Há quem diz que somos levianos e sujos
Afirmação voraz, pois de limpo não há nada
O concreto cinza e rachado pende em mugidos
Sustentando o peso da indústria incorporada

Logo tu viestes ressaltando a beleza ancestral
Retruco risonho, dane-se o teu amor prólogo
A epifania humanista carrega seu exército moral
E nós, levianos, carregamos a maldição do epílogo

“A luta contra o inferno jamais padece em derrota”
“Cala-te insano! consertarei o erro das gerações”
“Qual erro ressalta com tanta lorota?”

“O pecado original: as aquisições da destruição”
“Quais aquisições tu condenas tão voraz?”
“O passado indevido, a busca pela conservação”

Caixa velha

Tenho uma longa história, uma infinita existência e uma breve narração. Escorada no porão, longe da luz e do amor, apenas um papelão desbotado com brinquedos velhos dentro. Trago os bons costumes, a verdadeira finalidade exercida por uma caixa, aquela que guarda consigo o seus valiosos objetos, que o tempo leviano intercede, conduzindo ao esquecimento. Pó, silêncio, baratas, frio e vazio.  Tudo o que conseguimos pensar quando não estamos bem, é as coisas que eram boas antes disso, todavia, não quero lembrar-me de nada. Não sou um ventilador observador para divertir com uma doce leitura, não sou um casaco aventureiro com uma incrível reflexão ou até mesmo um espantalho poeta; sou o que sou, uma caixa. Trago talvez brinquedos que possam relatar uma boa experiência que os leva a dor do esquecimento, apenas me abra e pegue-os, leve-os daqui, pois sou incapaz de dar-lhe sabedoria.

Posso relatar como vim parar aqui, tudo começou com a cesta básica, muitos alimentos vieram dentro de mim, os guardei bem, um gigante de rodas me trouxe. A mulher que me recebeu era linda, havia centenas de verrugas formosas em seu rosto de maracujá velho, ela era lenta e tremia enquanto removia os alimentos conservados dentro de mim. Não sei o seu nome, mas eu a chamo de Berlinda, era o nome de um saco de macarrão que esteve dentro de mim. Após a minha utilidade ter seu fim, fui levada duas semanas depois a um quarto, que eu imaginava ser de uma criança, inclusive estava ansiosa para ter novos objetos guardados, entretanto, minhas expectativas foram quebradas ao vislumbrar um homem adulto, que guardou seus brinquedos antigos aqui dentro e me trouxe para cá.

Desconheço o tempo, somente o espaço, e passei tempo demais para conhecer este porão solitário. O que trago de valioso não é nada além de uma existência sem fundamento algum, talvez a humanidade esteja acostumada com grandes pensamentos que possam lhes trazer conforto, bem, eu não posso. Eu cumpri com o meu papel insignificante e não posso nem morrer. Minhas amigas de fábrica viajaram o mundo levando os mais valiosos objetos, e eu levo a dor eterna de não sentir absolutamente nada além do pó, da escuridão e do vazio.

O ventilador

 

Minha hélice frenética partilha do único sonido no topo da hierarquia de sons dessas quatro paredes. Os pés sorrateiros da cascuda barata não é capaz de sobressair; o ronco estrondoso do homem cansado muito menos. A atmosfera pesada é cocentrada em minha velocidade voraz, e assim despejo toda ira radiante no corpo esticado do homem.

Minha rotina não se limita nesse compasso. Acompanho cotidianamente a vida deste homem. Ele acorda, me desliga e retorna. Vejo em seu rosto todas as manhãs o desgosto, quando retorna vejo a melancolia. Ele costuma sempre ficar sozinho. Vivemos em um apartamento modesto na cidade, eu não ligo, pois meu lugar é aqui, no quarto ventilando. O que mais preciso? Mas e ele? Seu lugar é lá fora trabalhando? Apreciando a paisagem? Ele esta em todos os cantos dessa casa fazendo algo e eu aqui todas as noites ventilando. O que eu preciso? De um quarto com uma janela e uma tomada 110v. O que ele precisa? Não sei. Eu sei o que é viver em um quarto, não sei o que é viver além da janela, que exala a imagem dos prédios solitários todas as noites. Talvez ele não tenha algo, quem sabe? Bem, eu não reclamo porque tenho tudo o que preciso. O que o homem que dorme sobre minha ventilação precisa? Eu fico aqui pensando, olhando através da janela o por do sol laranja que dá vida às sombras dos prédios, o que algo que sempre esta se movimentando para lá e para cá precisa?

Ele retornou hoje a noite, acompanhado de alguém. Não sei descrever exatamente o que era… Parece-me uma mulher. Igual àquela que me vendeu ao homem, todavia, esta é mais feia. Estão conversando na sala; estão vindo ao quarto; estão se tocando; estão deitando. AH MEU DEUS, o que é isso? Que nojento. Ele parece tão feliz! Mas é um porco feliz. Eu não quero ver isso, me gira seu desgraçado! Ah, ela disse que estar com calor, isso, me ligou. Pronto, não sou obrigado a…. Ei, cuidado, cuidado com esse pé! Ahh! Cai… Morri.

Traição involuntária

Escrevo esta memória à minha esposa

 

“Ocorreu há dois anos, estávamos voltando de um jantar. As coisas não estavam indo bem, creio que o jantar piorou tudo. Ela não aceita que tenho que partir, a vida tem suas exigências; é egoista e tem tendência a afastar as pessoas. “Você não precisa ir à guerra, eu só tenho você… Vamos fugir, por favor!”, Por mais que eu tentasse convence-la, sua insistência era eminente e voraz, “eu não sou um covarde, muito menos um traidor… Prometo voltar”.

E assim se foi uma longa batalha de onze meses. Ela não me enviou cartas, estive desconcentrado durante a guerra, fui baleado na perna esquerda e mandado para casa. Voltei ansioso para vê-la, estava inteiro para minha doce amada, porém, a notícia que tive foi pior do que qualquer tiro. Ela havia me traído. O conceito de hipocrisia a velou, pois eu que fui à guerra, e ela que me traiu com a morte.”

A verdadeira liberdade do espantalho

Finalmente após muito tempo de exílio

Espantalho tem suas amarras rompidas

Vagando no bosque maldito, pede auxílio

Mas teus olhos de palha não vêem clareza

 

“O que vejo além da mesmice, o que afinal?”

“Deve libertar-se das amarras” disse

O espantalho revoltado desentende como tal

Pois sua existência nasceu da fúria de garras

 

Garras plenas de um poema em tom místico

“Há tempos fui liberto pelo corvo!” disse

“Realmente esta livre, magnífico” respondeu

 

“Porém, ouça o que tenho a dizer” continuou

“Apesar de finalmente livre da prisão…”

“Ainda a leva dentro de si em seu coração”.

 

O último homem

 

– Minhas botas pisoteiam a escarna morta de um mundo vivo falecido, o cheiro de suor mesclado com sangue fresco dominava o aroma terrível de solidão em minhas narinas. A loucura ganhava forma aos poucos, como um câncer nos testículos enquanto você cobiça uma bela de uma meretriz.  O que esta dizendo infeliz? Não era tudo que sempre quis, tua simples e genuína solidão, privacidade. Afirmava: eu odeio isso, eu odeio aquilo, eu detesto ele, eu detesto ela! Ficaria melhor sem eles. Pois cá esta, derretendo todas afirmações em simples palavras sem fundamentos, sem sustento algum. Olha, vê ali? O bar onde seu pai se embriagava. Dizia: “odeio este homem”. E eu o odeio! É mesmo? Por que choras então? Que lágrimas são estas em tuas maçãs do rosto? Ah.. Isto? isto não é nada, não olhe para mim. HA-HA, eu irei olhá-lo, pois não há mais ninguém para olhar-te, não há ninguém para pensar e imaginar “se eles estivessem vendo-me agora arrepiariam!” Calado!

O homem caminhante vagava, andando pelas ruas calmamente, desferia-se um soco no maxilar, debruçando-se na neve, espalmando as mãos calosas. Tudo estava frio, tudo estava distante. O poste em sua frente com um folheto escrito: “chame este encanador”, estava distante mesmo diante dos seus olhos. Não havia mais ninguém além dele, ninguém. As construções, as casas, os terrenos, os mercados, os bares e lagos, tudo que a humanidade transformou estava lá, exceto ela mesma. Mas será que a humanidade se transformou? O homem caminhava, discutindo com as vozes, com sua própria voz.

– Estou perturbado! Ai de mim! Soco-me, falo comigo mesmo como se fosse alguém! E eu não sou ninguém? Não, você sou eu! Sim, eu sou você. Você me criou, estou dentro de você, eu te criei e você esta dentro de mim. Chega! Quem esta dizendo o que afinal? É fácil. Como um arco-íris que se forma após a chuva mesclada com o sol, sou a cor cinzenta das nuvens de teu mundo que transforma tais cores no que são. Quem esta dizendo isso agora? Eu. Eu quem? Eu ora. Descreva-te canalha! Sim, descrevo-me: sou o que vê beleza na lama pisoteada para trabalhar. O pneu que saiu de teu fusca e foi-se rodando, rodando pelo horizonte, homem nem um parava este pneu, nem o seguro de teu carro parava este pneu, o pneu era indomável. Ele não era essas folhas das árvores que humanos tanto amam, amam árvores, animais, BLERG! Eu não sou árvore, não sou animal! Sou uma borracha que roda, eu quero rodar! Vou rodando, estou tonto, quero vomitar, mas não possuo estômago, o que sou? Para onde estou indo? Ora essa, este pneu que tu descreves é um tolo.  Tolo? O pneu de borracha não natural que roda é tolo porque quer saber por que foi criado? Ele foi criado para ser usado de suporte ao veículo e nada mais! Tem certeza? Pois este pneu ainda não parou. Desceu a ladeira da favela, desceu a muralha da China, subiu o Morumbi, subiu a França, a Alemanha, caiu nas sete mil toneladas de fezes indianas, caiu em dois mil litros de água da piscina do burguês, caiu no pão do comunista, caiu do inferno e vagou no céu, e eu lhe pergunto para utilizar-se bem desta vírgula, o que tu fez O Último homem?